Guillade
Historia, cultura tradicional, persoeiros…
Delmiro e Francisco Candeira
Outubro 3rd, 2010 by Xose in Xente de Guillade

Chegou ás miñas mans un artigo de Rui Cardoso Martins publicado nunha revista portuguesa, a revista Pública o día 6 de xuño de 2010, p.81, co título Frangos, perus, gaivotas e pombas. Neste artigo, o autor recrea de forma literaria datos sobre a historia e o presente desta familia de Guillade, obtidos das charlas con Delmiro no restaurante Os Perus, en Lisboa, propiedade da familia. Reproducimos este texto deseguido:

Nao devemos adiar conversas mais de vinte anos e tirei a conversa do espeto com Delmiro, o galego. O Delmiro trabalha na casa Os Perus, à praça do Chile, a vinte metros da estátua de Fernao de Magalhaes, é a cervejaria com dois grandes machos de leque aberto no placard da porta, mas nunca lá assou perus, só frangos.

Sao os melhores do mundo que conheço, e já dei umas voltas, sao muito anos a assar frangos, diz-se, mas aqui é uma vida. Comi no Chile, na fronteira como Peru, em Arica, ondes os pelicanos atravessam a rua fora da passadeira, os papos gigantes de escroto a abanar, e era um bom frango assado mas nao como o do Delmiro Candeira Gonzalez, o galego. Carvao com espeto: o frango sobe e desce patamares, rolando feliz nas brasas como a Terra ao Sol.

Há vinte anos vivi nesta zona onde mulheres de salto esclareciam a noite:

– Levas uma naifada nos tomates que tos abro até o pescoço…

mudei de casa sete vezes mas sempre cruzei Lisboa, uma vez por semana, pelos frangos do Delmiro. Os dias de futebol, europeus, mundiais, pedem-me frango. Nunca tivemos a conversa. Nem demos um passou-bem completo, ele estende o braço para nao me sujar, os dedos dourados de sal grosso, limao, louro e sumo picante de frango. Uma vez, Delmiro lembrou José Cardoso Pires a terminar as madrugadas na tasca ao lado, a antiga Casa dos Perus, hoje fechada, onde ele e o seu irmao poeta galego cresceram, mais nada.

– O meu bisavô era da Galiza, era pobre e foi para o Peru. Do Peru foi para o Brasil, em 1800 e tal. Ele e o primo abriram uma fábrica de couros. O meu bisavô combinou com o primo vir à Galiza buscar a família. Nao sabia ler nem escrever e assinou uns papéis com o dedo. Quando voltou ao Brasil, nao havia nada, o primo tinha-lhe roubado tudo. Veio para Lisboa com a mulher e cinco filhos. Começou a abrir tascas no Cais do Sodré. Aqui volta a história do peru. Ele tinha na tasca um peru que gostava de ir bicar no tonel do vinho a pingar.

– Um peru bêbedo.

– Gostava da pinga. E os clientes iam lá também ver o peru.

Na República, a família subiu a Almirante Reis até ao Chile, duas casas a assar frangos, 700 por dia cada uma, Delmiro e o irmao poeta tem foto numa pirâmide galinácea maior do que eles.

– Delmiro, isso quer dizer que é o dono disto. Há vinte anos que penso que é empregado. É demasiado modesto.

A palabra poética

é a sombra (insuficiente)

dunha voz ilícita, escondida.

Mais grazas a ela a alba existe.

É de Francisco Candeira e ouve-se como português antigo, a cantar. O irmao de Delmiro estudou letras em Madrid, Delmiro chegou ao terceiro ano de Veterinária e, de repente, por voltas do espeto da vida, por assim dizer, regressa a Lisboa para assar os frangos da família.

Lisboa é un palco nítido de soños

esquecido no ventre das gaivotas

nas azas fatalistas da Saudade

no silencio de cinza das súas pombas

percorrendo o ceo branco da cidade.

Do assador sai uma nuvem deliciosa que chama narizes da rua

Se as nubes van

eu vou de Lisboa a Galiza: son un home do aire.

e entram clientes, olhe hoje é meio com picante, é um sem molho, para mim o costume. Damos um passou-bem de mao cheia. Sal grosso, limao, louro, sumo picante.

Faz tanto calor que nao sei se é o frango, se Delmiro, o galego, quem assa.

Escritor rui.cardoso.martins@publico.pt

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